Seria o fim da produtividade?

Nota da Lifelong Workers: O texto a seguir é um artigo intrigante sobre a nossa relação com a produtividade, originalmente publicado na Vox (EUA) e traduzido pela equipe Lifelong Workers – uma vez que vimos um grande valor nas reflexões trazidas nele e por diversos profissionais de mercado ao longo da quarentena. Se queremos ressignificar o trabalho, a renda e a vida, precisamos trazer mais luz e fomentar o debate em torno de assuntos delicados – e sistêmicos. ; )

Isso é o fim da produtividade?

Em meio à pandemia, trabalhadores pautados em uma definição de vida por conta de seus empregos estão se questionando para que serve tudo isso.

Nina Rudnick às vezes sonha em fugir. Como diretora de uma organização de pesquisa psicológica sem fins lucrativos, Rudnick, 37 anos, está diante de uma realidade inevitável: Trabalho – e a constante sensação de que ela deve permanecer imersa nele – nunca termina. Num dia típico, ela tira seu filho de 3 anos da cama e o deixa na creche antes de encarar uma jornada de nove horas no escritório. Muitas vezes, depois de colocá-lo para dormir, ela volta ao computador. Enquanto ela continua a crescer na área em que atua, o ímpeto de trabalhar além das horas de um dia normal só aumenta.

Porém, com a chegada da pandemia do Covid-19, a vida desacelerou. Rudnick não acorda mais seu bebê de manhã para ir o escritório naquela correria doida. Ela ainda está trabalhando, mas a produtividade na frente de um computador está abrindo espaço para momentos de doçura com o filho. Ela não quer que isso mude.

“Nos últimos dois anos, venho trabalhando duro, por muitas horas e lamentando o fato de estar longe do meu filho”, diz ela. Mas, incrivelmente, nesse isolamento eu tive muitos momentos agradáveis com ele”.

Como tantos outros americanos, Rudnick passou grande parte de sua vida adulta se esforçando para atender a uma demanda incessante por produtividade, tanto na área profissional quanto na pessoal. Ela diz que “áreas hipercompetitivas”, como a Bay Area, onde mora, reforçam a noção endêmica de grande parte da sociedade moderna americana: a de que o trabalho e a contínua produtividade é a mesma coisa que buscar um propósito maior e mais significativo na vida.

“Quando você transforma o seu trabalho na sua identidade, acaba se limitando”, diz ela.

 

Ela aprendeu que “o risco de estar errado ou não produzir o tanto quanto é esperado de nós é muito maior quando alguém se define pelo que faz”.

Cruzando o país, Maggie Connolly, 33, uma cabeleireira e maquiadora artística de vários clientes de propaganda comercial, da região Brooklyn, chegou a uma conclusão semelhante. Sua carreira exigia que ela viajasse na maioria dos meses, e os negócios consumiam a maioria dos aspectos de sua vida. Em seu campo de atuação, “estar lotada e ocupada era realmente glorificado”, diz ela. “Até agora, eu não tinha percebido o quanto isso era prejudicial.

 

Nós realmente associamos o sucesso a estarmos exaustos com o trabalho. – Connolly

 

Com a pandemia cancelando suas oportunidades de trabalho, Connolly se pergunta por que nunca procurou satisfação em outro lugar. Agora que o trabalho não é mais a força determinante de sua vida, ela começou a cozinhar para uma instituição de caridade local, enquanto enfrenta grandes questões existenciais: “Quais são meus hobbies? O que me faz feliz? Quais são os meus interesses fora do meu trabalho, já que agora que não o tenho mais?”

De subreddits a salas de diretorias corporativas, ou em simples mensagens nas mídias sociais, nos últimos anos, mais do que nunca, o trabalho é anunciado como um modo de vida e a produtividade é a medida em que provamos estarmos vivendo isso ao máximo. Como fomos forçados a trabalhar em casa, ou demitidos do trabalho e passamos a reivindicar empregos, a América ainda é uma nação obcecada por produtividade. Os leitores são bombardeados com um fluxo interminável de supostos guias para permanecerem produtivos no isolamento ou, por outro lado, como combater a pressão por ter que performar e apreciar a ociosidade. E trabalhadores como Connolly e Rudnick se encontram alinhados com os esforços do país inteiro em buscar significado e identidade diante do desaparecimento do emprego e da fugaz exigência de trabalho.

“Produtividade é a moeda pela qual medimos nossa própria dignidade”, disse Anat Keinan, professora adjunta de marketing da Universidade de Boston, à Vox por e-mail. “Sabemos que é impossível manter um nível normal de produtividade no trabalho durante esse período, mas por algum motivo, nos sentimos um fracasso produtivamente quando não é possível cumprir todos os [nossos] objetivos”.

Em meio à pandemia, essa crescente sensação de falta de sentido fez com que alguns trabalhadores chegassem à mesma conclusão que Connolly: o isolamento, diz ela, foi uma experiência de “acordar e perceber que você gastou muito do seu tempo trabalhando. É isso mesmo que você quer fazer com sua vida?”

Kaylah Braun, 30, de Nova York, foi recentemente demitida de seu emprego como diretora de compliance de um banco internacional. Ela se identificava fortemente com seu trabalho, mas desde que se isolou em seu apartamento em Manhattan – a procura por seu trabalho durante a pandemia diminuiu – ela está meio perdida em como expressar esse sentimento de identidade. “Graças a Deus não estou namorando, caso contrário não saberia o que dizer às pessoas”, diz ela.

Mesmo sem um emprego para reforçar esse sentimento de identidade, ela percebeu que “você ainda é uma pessoa. Você ainda existe fora do trabalho”.

 

O culto à produtividade definiu o trabalho americano e a cultura do lazer, cada vez mais em voga últimas décadas, vem sendo vendida por uma legião de acadêmicos, MBAs, palestrantes do TED e especialistas nomeados, como uma rota mágica para o domínio profissional e a felicidade pessoal. Clássicos de autoajuda, como Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes e A Arte de Fazer Acontecer, espalharam a ideia para milhões de abelhas operárias crédulas de que uma abordagem gerencial do trabalho e da vida é a maneira mais rápida de vencer.

Algumas de nossas figuras históricas mais veneradas também eram falcões da produtividade; A agenda diária de Ben Franklin era tão metódica quanto a de qualquer CEO dos tempos modernos, e Shakespeare, escreveu o Rei Lear em um ataque de superprodutividade enquanto estava em quarentena durante a Peste Negra. No entanto, nossa obsessão moderna com a produtividade realmente começou no início dos anos 80, com o gradual desaparecimento da rede de segurança social dos EUA e a ascensão do capitalismo de mercado sem restrições.

Por um tempo, a ideologia deu frutos à economia americana, pois as empresas americanas passaram a dominar o mercado global nos anos 90 . Era essencial para o crescimento meteórico das empresas uma cultura de negócios que priorizava os acionistas, diz Andrew Smart, autor de Piloto Automático: A Arte e A Ciência de Não Fazer Nada. Os trabalhadores quase não tinham outra escolha a não ser internalizar o mandato de produtividade para medir seu próprio valor em contextos profissionais. Essa estratégia corporativa teve um maior impacto com a emergente literatura sobre produtividade repetindo a idéia de “apenas se esforce ao máximo e tudo ficará bem”.

Embora se provou não ser verdade. Os últimos 10 anos de constante expansão econômica deram origem à noção de que a produtividade gera prosperidade, pelo menos no caso daqueles que estão no topo da hierarquia econômica. Mas, desde a década de 1970, apesar do aumento da produtividade individual dos trabalhadores, o real crescimento anual dos salários tem sido lento, subindo pouco menos de 0,2% entre 1973 e 2017, de acordo com uma análise do Projeto Hamilton. E a subsistência dos trabalhadores permanece extremamente frágil: diante de uma iminente depressão provocada pela pandemia, fica claro que todo esse incessante esforço pode ser derrotado por uma peculiar crise fora de nosso controle.

No entanto, a ideia de que a produtividade determina o valor de uma pessoa permanece internalizada por uma geração de americanos. É uma pressão que prejudica nossa saúde física e nosso bem-estar: estudos ao longo desses anos mostraram como o estresse pode enfraquecer o sistema imunológico e como os americanos costumam se sentir culpados por fechar seus laptops e se permitirem a pequenas indulgências, como férias. O surgimento de uma ética de trabalho “sempre disponível” significou uma inundação de mensagens e e-mails do Slack que seguem os trabalhadores até em casa, muito além das demandas de uma jornada tradicional de oito horas.

O tempo de lazer também pode se tornar uma forma perversa de trabalho, quando ticar uma lista de “experiências” inesquecíveis se torna uma completa fuga – um ato que Keinan, da Universidade de Boston, chama de construção de um “currículo experimental”.

Essa aflição seguiu os trabalhadores na incerteza da quarentena, ao mesmo tempo em que foram demitidos ou entraram em férias coletivas.

Antes da pandemia, Aaron Doty, 25, de Boulder, Colorado, trabalhava como gerente de cozinha e fazia turnos de nove horas, cinco dias por semana e ainda tinha aulas em uma faculdade comunitária local. Antes do restaurante parar as operações indefinidamente, ele sentia que estava progredindo na vida. “Provavelmente, esse foi o primeiro emprego onde senti que se eu trabalhasse duro e fosse produtivo, seria capaz de chegar a algum lugar”, diz ele.

Muito desse anseio por produtividade vem das mídias sociais, diz ele, onde as pessoas mostram suas realizações, apesar da pandemia. “Vendo a produtividade de todo mundo mesmo nessa situação, sinto que, mesmo eu sendo tão produtivo quanto possível, ainda não estou nem perto de ser super produtivo quanto deveria ser.”

Embora Rudnick, a diretora da organização sem fins lucrativos, tenha experimentado uma espécie de epifania durante essa baixa da economia, a noção de que devemos permanecer constantemente imersos no trabalho continua inalterada.

“Tenho visto pessoas arrumando os seus quintais e costurando zilhões de máscaras, criando vídeos no YouTube e fazendo aulas de exercícios físicos online cinco vezes por semana no Zoom”, diz Rudnick.

Smart observa que os seres humanos “sempre foram esse tipo de criatura de resistência”. Penso que fomos condicionados socialmente a valorizar o trabalho. “Eu acho que essa noção heróica de que eu preciso ser algum tipo de estrela mundial é definitivamente um aprendizado cultural”, diz ele.

Ninguém entende realmente como poderia ser uma sociedade pós-produtiva. Tanto chefes quanto trabalhadores devem estar repensando o quanto se trabalha de casa. Dan Schawbel, sócio-gerente da empresa de consultoria de recursos humanos Workplace Intelligence, diz que a pandemia provocará um impulso massivo para disseminar políticas de trabalho remoto.

“Pense no Covid-19 como o combustível para implantar esses programas “legais de se ter” no local de trabalho que os funcionários sempre desejaram, mas as empresas não eram obrigadas a oferecer”, ele escreve em um email. “Agora que os funcionários se acostumaram a participar desses programas, eles esperam isso no futuro, e se tornará um de seus critérios de busca por emprego”.

A questão de como implementar uma forma de economia humanizada que requer menos produtividade de trabalhadores individuais é a tarefa mais onerosa. Mas, talvez, como a maioria dos americanos foi forçada a considerar um estado de inatividade sem precedentes, estaríamos mais inclinados a desligar nossos telefones e separar a produtividade do nosso valor pessoal. Escritores como Smart há muito tempo já argumentam que isso é benéfico e, ironicamente, pode nos tornar mais produtivos a longo prazo.

Smart tem esperança de que a ideia de produtividade esteja menos ligada à realização individual e mais a um sentimento de comunidade.

“O que essa pandemia nos mostra, entretanto, é que de uma hora para outra podemos parar tudo”, diz ele. “Espero que, em vez de entrar em pânico e tentar voltar à normalidade, as pessoas reflitam sobre o que devemos deixar para trás, em vez de retomar”.

Essa era não dita necessariamente o fim do culto à produtividade. Mas, definitivamente, nos dá uma chance de escapar disso.

Sam Blum é escritor e jornalista em Nova York.

*Tradução livre pela equipe de comunicação da LifeLong Workers

Artigo original publicado na Vox: https://www.vox.com/the-highlight/2020/5/15/21252544/coronavirus-covid-19-hustle-work-productivity-ambition-loss

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9 Comentários

  1. As coisas boas da vida estão muito próximas de nós, apenas deixamos de valorizá-las.

    1. Exatamente. Onde foi que nos perdemos? Mas felizmente estamos acordando e voltando a valorizá-las, não é mesmo Milton Zen? : )

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